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28.10.09

músicas para vaguear pela noite #1

para primeira viagem... em português. é só pôr os auscultadores e perdermo-nos pela cidade que nunca dorme.

toranja, música de filme

ornatos violeta, ouvi dizer

da weasel (c/ manel cruz), casa (vem fazer de conta)

mesa, vício de ti

donna maria, aqui tão perto de ti

jorge palma, quem és tu (de novo)

pedro abrunhosa, quem me leva os meus fantasmas

ana moura, a sós com a noite

susana félix, (bem) na minha mão

sérgio godinho, lisboa que amanhece

R.

16.10.09

Biografia de um caminho

para a P

Um pé atrás do outro. As mãos a tentarem inventar lugar onde repousar. E não denunciarem o nervosismo. Que não fica apenas pelas mãos suadas. É de todo o corpo – ansioso. E, acima de tudo, uma inquietação que é da alma. O caminho é feito num estado de dormência. Os passos decorados. Por vezes lentos. Mas a alma – essa já voa. A caminho. E é assim que se encurta a distância para o encontro de dois anjos. Para o inesperado. É de corpo ausente. E alma (demasiado) presente. Toda uma estória feita de conversas inventadas sob a luz amarelada dos candeeiros na rua. E quase sempre à noite. Numa tentativa de combater as insónias – a princípio. Ou de enganar o sono – depois. De voar de mão dada para lugares distantes – sempre. E pese a certeza de tudo, neste momento revêem-se (à pressa) na memória todas as pontas soltas. Tentando uni-las num novelo que explique esta ansiedade. Um enredado de emoções e sentidos. De imagens que se foram criando na nossa cabeça. Sorrisos que desenhámos a carvão e saliva. Olhares que pintámos de uma mistura de castanho e esverdeado. E tudo o resto, que não vendo, fomos rabiscando num caderno de ilusões. Pinturas de viagens a "ilhas" distantes – que fomos tornando perto. Criando pontes entre o aqui e o que está para lá de nós – o que nos espera além.

São as ilhas, os sorrisos e as pontes que nos fazem pesar os pés nesta caminhada na noite. E que impedem as mãos de encontrarem poiso certo. Pela expectativa. Do abismo que aí vem. Não um abismo fatalista e de contornos sombrios. Não pelo precipício. É um abismo porque faz estremecer a respiração. Porque desequilibra as pernas. Por trazer ser a incerteza do que se esconde para lá da linha crepuscular do horizonte. É um abismo bom. Onde apetece mergulhar e pernoitar sem receios. Deixarmo-nos afundar. Este peso nos pés – este formigueiro nas mãos – tudo faz parte deste mergulhar dos sentidos. Da mão nervosa em busca de outra mão. Tocar no outro e sabê-lo real. De sentir o aroma de quem nos espera. Aprender a reconhecê-lo na multidão. De fotografar essa silhueta na memória. Trocar o brilho dos candeeiros pela cintilação do olhar. E de gravar a sangue as palavras recebidas, o som do eléctrico que ajuda a quebrar o silêncio, o cão vadio que reclama a atenção destes transeuntes acidentais. E de, finalmente, poder também oferecer todas as palavras que fomos arquivando dentro de nós. Ou então ficar calado, por compreender não ser necessário explicar o momento.

Mãos. Aroma. Olhos. Sons. Palavras. Os pontos cardeais de uma rota tão inesperada como apetecida. Um caminho que embora pareça agora dormente, apenas o é por não ser preparado. Por ser aceite pelo que é – sem contrato nem pré-requisitos. Pelo risco. Pela vontade. Pelo nervoso miudinho que nos põe o corpo todo em alvoroço. E que faz a alma sangrar em catadupa. Expulsar os ressentimentos de outros. E abrir espaço para sentir novas memórias. Novas sensações. Cada gota de sangue é uma pérola – um passo na calçada – uma gota de orvalho que refresca os nossos sentidos. Um caminho guiado por uma linha vermelha – cor do sangue que palpita desenfreadamente. Uma linha vermelha que é bússola na noite. Na direcção de algo. Que não adivinhamos. Mas que queremos descobrir...

Os passos dormentes levam-nos ao lugar marcado – não por um X, mas por todas as palavras escritas e imagens partilhadas. Num instante, todas as hesitações cessam. Não importa o eléctrico que passa. Ou o cão que ladra. Não importam os últimos corpos que vagueiam pelas ruas. O mundo fecha-se. E como se de um palco se tratasse, há um foco de luz que ilumina o preciso momento em que as asas se abrem. Longe de estar terminado, o caminho é afinal uma estrada de destino desconhecido, mas que não queremos (podemos?) evitar percorrer. E nessa jornada, conhecermo-nos um ao outro.

Olá. [obrigado por estares aí/aqui]

R.

10.10.09

Em noites como esta

em noites como esta apetecia-me viajar
sem marcar um destino
estar aqui agora
e depois já não
chegar a algum lado
ainda noite profunda
ninguém nas ruas
somente nós
e os cães vadios a ladrarem
e os candeeiros a marcarem a nossa rota
como se já nos esperassem há muito
andarmos à deriva pela cidade
aqui e além determo-nos
olhar os prédios adormecidos
ao fundo, uma ou duas luzes nas janelas
talvez não sejamos os únicos
- os únicos com insónias
mas nestas ruas somos reis
e numa cidade qualquer
na cidade emprestada
esperávamos o nascer do sol
os primeiros raios de luz
as primeiras pessoas
nas suas rotinas diárias
a cidade que acorda
- para onde irão os cães vadios quando a cidade acorda?
as ruas começam agora a encher-se
as multidões
os cafés abertos
o pequeno-almoço apressado
...e nós aqui
na cidade (agora) acordada
onde somos apenas mais uns
e depois voltarmos
ao ponto de partida
onde sempre retornamos após viajarmos na noite
ao nosso poiso
e aí descansar
com uma nova estória
um novo sorriso

até amanhã.

R.

9.10.09

Roteiro do teu corpo

em constante actualização

1. Apareces assim de repente. À minha frente. Não te vi chegar. Mas a verdade é que chegaste e impuseste a tua presença. Não me julgues mal - não me estou a queixar. Antes pelo contrário... Mas talvez me pudesse ter preparado melhor. Para te receber condignamente. Ou se calhar até é melhor assim - inesperado. Assim estou obrigado a improvisar. A não ter planos nem mapas por onde me guiar. Estou definitivamente obrigado a ser eu. À tua chegada, apresento-me nú. Despido de ideias pré-concebidas. Vou a jogo sem armas adequadas à batalha. Mas, estranhamente (ou não), sinto-me seguro. Talvez por não saber qual o desfecho que procuro - sinto-me confiante. Porque seja o que for que possa tirar desta súbita aparição, já irei considerar lucro. Talvez por precisamente não estar à espera. És como um fruto exótico e apelativo - mesmo não conhecendo o sabor, quero provar.

2. Quero tocar-te no sorriso. Perceber que cicatriz esteve na sua origem. Que mágoas ficaram esquecidas para que agora possas sorrir. Para mim. Quero passar os meus dedos. Sentir cada pequena ruga. Adivinhar-te os lábios e as palavras que há já muito me dizias. Nos meus sonhos. Nessa altura, não sabia que eras tu que me sorrias e chamavas para perto de ti. Mas agora sei. E vou - sigo-te. Ainda para mais quando sorris para mim. Sem razão aparente. Apenas porque gostaste de uma palavra que te dirigi. Ou de uma imagem que juntos imaginámos. E agora dominas as minhas memórias com um sorriso imenso. Que me suga para dentro de ti. E que me pede que lá assente morada. E é assim que dou por mim a desejar viver nos teus lábios. E passar a ser, também, parte do teu sorriso.

3. Existem dois mares de ocre em ti. Onde desejo nunca saber nadar. Para que me possas salvar. Os teus olhos têm a capacidade de me hipnotizar. De olharem directamente à minha alma. De a penetrarem e descobrirem os meus segredos mais profundos. Talvez me devesse proteger - mas não quero. És benvinda. E os teus olhos de odalisca também. Serão meus convidados de honra na tua visita a esta terra árida que é o meu corpo. Que está sedento de se afundar no mar que são os teus olhos. Sim, admito sem pudor. Quero encher-me do teu brilho. Quero sentir-te a me invadires com o olhar. Os meus verdes olhos estão invejosos dos teus. Por favor, acarinha-os. Descobre que exótica côr nasce do acasalar do castanho e do verde. Não me deixes cegar, só para que me possas guiar. Salva-me do teu olhar. É tudo o que te peço. E depois... deixa-me afundar novamente.

R.


1.10.09

Lembro-me da estrada

Lembro-me de uma estrada longa. Que vinha lá de longe e se perdia na linha do horizonte - ou até mais além. Lembro-me dos campos de girassóis. Tu sempre gostaste de girassóis, e por isso eu também. Os campos, que também eles se perdiam da vista. E lembro-me de estar calor. Sim, estava muito sol nessa imagem que me povoa a memória. E os girassóis reflectiam o amarelo-laranja da tarde de calor. Porque era de tarde - isso tenho a certeza. Talvez já pela hora do lanche. Porque também me lembro de ter fome. E as tardes não são realmente tardes se não tiverem um familiar lanche. E lembro-me de aqui e além uma ou outra árvore perdida. Talvez sobreiros, não sei... Mas acima de tudo lembro-me da estrada longa. Que ligava nenhures a lado algum. Uma estrada que existia apenas pela (nossa) vontade de andar. De palmilhar cada metro, cada quilómetro. Uma estrada que existia porque assim o sonháramos.

Andava pela estrada há já horas. Seguia-te no ímpeto de avançar. De perseguir essa linha do horizonte que teimava em nos fugir. Tentar agarrar o pote de ouro no seu fim. Não, espera... isso não é no arco-íris? Bem, seguia-te na vontade de chegar contigo a qualquer lado. Sempre tiveste esse poder sobre mim. De me conseguires convencer a seguir-te nos projectos mais absurdos - ou mais sonhadores. E de nunca fazer perguntas. Detestavas questões e hesitações desnecessárias. Ou assim julgava eu - acho que nunca te perguntei realmente. Seguia-te, pois, devotamente. E assim, nesse contrato tácito de cumplicidade, viajei contigo pelo mundo inteiro. Um mundo em que deixávamos de ser nós. E onde juntos fomos reis - onde fomos ermitas no cimo da mais alta colina - onde vivemos apenas dos nossos corpos em ilhas distantes - ou onde fomos viajantes numa estrada sem princípio nem fim. E nesse constante (re)nascer fomo-nos esquecendo de quem éramos. Ganhámos novos nomes. Fomos irmãos e amantes. Tu senhora e eu servo. Perdemos a idade e a família. Fomos um só. Perdemos toda a bagagem que haviamos trazido um dia - nem sei quando - no dia em que nos encontrámos. Deixámos de precisar de malas. E passámos a bastarmo-nos um ao outro. Era esse o nosso mundo.

Lembro-me de caminhar pela estrada. Com a linha do horizonte em frente - a linha do passado atrás. Ao longe uma névoa. Uma sombra. Uma miragem. E tu sempre a andar, sem explicações. As horas passando. A miragem é agora um serpentilhar de formas pouco a pouco reconhecíveis. E é assim que, mais tarde, se começa a vislumbrar uma cidade. Olhámos um para o outro. Parecia que, pela primeira vez, buscavas em mim uma resposta. Que eu não tinha a certeza de poder dar. Nas nossas jornadas muitas vezes haviamos inventado cidades, onde viviamos aventuras à nossa medida - cidades imaginadas que se moldavam constantemente aos nossos desígnios. Mas agora, era mesmo uma cidade real que se nos apresentava em frente. E agora olhávamos um para o outro. E pela primeira vez - ou assim me lembro - não dissemos nada. Não nos reinventámos. Não ganhámos novos nomes e idades. Pela primeira vez, nada havia para além do agora, de nós às portas da cidade. De nós perdidos. Sentimos que a nossa viagem tinha chegado ao fim. Que nós tinhamos chegado ao fim. E não existiram palavras para expressar a dor do terminar. Soube que o meu caminho seria diferente do teu. E também tu percebeste que a linha que nos unia estava prestes a se quebrar. Conhecendo-te como só eu, sabia que não entrarias na cidade. Que nunca suportarias ser apenas mais uma na multidão. Mas eu precisava do descanso. Precisava de me sentar e ver a vida passar - nem que fosse apenas por momentos, pelo gozo de o fazer. Virámos costas. Eu a caminho das portas da cidade - esperando finalmente encontrar o meu lugar. Tu, fixando o olhar na linha do passado, avançaste sem temor. Como se sempre tivesses sabido que era esse o nosso destino: encontrar a cidade que separaria. Não dissemos adeus. Seria ridículo fazê-lo, tendo em conta tudo o que viveramos juntos. Avançámos em direcções opostas. Para mundos opostos. Para viver vidas opostas. As portas da cidade fecharam-se atrás de mim. Foi a última vez que nos vimos.

Isto passou-se há muitos anos - talvez mesmo noutra encarnação. Sabes, os dias e as horas vão colando-se uns nos outros, até deixarem de ser dias e horas e passarem a ser apenas tempo passado. Mesmo eu já perdi a noção de quanto tempo passou desde que nos separámos. De há quanto tempo assentei poiso nesta cidade que nunca dorme. Fui criando raízes. Tentando misturar-me no meio da multidão. Até que, finalmente, me aceitei como mais um. Muito do que vivi contigo está já escondido no fundo do baú das memórias. Não me lembro da côr dos teus olhos, nem da textura das tuas mãos. O teu nome - nunca to perguntei. Mas não passa um dia que não te (re)crie na minha imaginação. Recordando as aventuras de que ainda me lembro. Inventando outras de novo. E continuo a seguir-te cegamente para todo o lado. Nas noites de insónia, és foste sempre serás a minha companhia.

R.

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